Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo em que era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via um infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim (que não tem fim)
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos atrás
Cazuza
foto: Antonio Fonseca
sábado, 10 de maio de 2008
Poema
quarta-feira, 7 de maio de 2008
por todo o hoje
Esse tempo que não passa,
nem passeia,
o tempo só me trapaceia,
enquanto lentamente passa,
coisa feia, fazendo pirraça
da desgraça alheia!
Esse tempo que não pára
lentamente de passar,
deixando tudo mais além,
melodia quebrando
o silêncio de alguém.
Pra que prece, pra que praça,
se esse tempo não tem pressa?
Quanto mais lentamente passa,
mais aumenta essa falta de ar,
esse estado ausente, latente,
esse hoje que não quer parar.
Esse cheiro romã, essa febre terçã,
até mesmo esse afã de nós dois,
tudo tem de esperar pra amanhã,
renegado a esse mero depois.
poesia: Múcio Góes
terça-feira, 6 de maio de 2008
crença e crescença
Tenho a virtude,
ou seria o defeito,
de acreditar em tudo
de tudo que é jeito.
Ver para crer,
desde quando?
basta me contar
e já estou acreditando.
Neste poema, por exemplo,
eu acredito,
mesmo não estando escrito.
E por incrível que pareça,
eu acredito até
em dor de cabeça.
poesia: Mister M
foto: Samy
segunda-feira, 5 de maio de 2008
soneto do amor total
Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.
Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.
E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.
amo-te assim... mesmo sabendo que corro perigo, não tenho medo!
Vinicius de Moraes
domingo, 4 de maio de 2008
soneto de fidelidade
é L... Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito...
sábado, 3 de maio de 2008
Uma valsinha pela noite
Ainda ontem, enquanto assistia a um filme sem assisti-lo, naquele divagar natural, em que os olhos fingem ver o que está à sua frente, me veio à tona, sabe-se bem de onde, aquela valsinha triste de quando brigávamos. A que você tinha num cd antigo, brinde de uma dessas revistas de fofocas. Rabiscando isso aqui, agora, saiu-me aquele riso tosco que você dizia gostar. Brotou porque nos vi tão comuns, lendo revistas de fofocas. Mas, voltando, a valsinha curtinha, tão singela ao piano de... de quem, mesmo? Ah, você sabe melhor que eu, leigo que sou nessa parte de música clássica. Pensando bem, virei um leigo total, posto que com competência, mesmo, o que sei atualmente é sentir sua falta.Sei que a madrugada já tinha entrado, junto com os vizinhos. Aqui e ali latia um cão, e no resto que era silêncio, ela tocou, inteirinha em baixo som. Parecia vir de longe, trazia dentro uma brisa, um jeito de chuva, cheiro de saudades. Pra você ver, até de quando brigávamos sinto falta. Sua carinha emburrada, o quarto fechado, e a valsinha nos ecos... de quem é, mesmo... Chopin?... não, não... Sempre fui fã de violinos. E já brigamos por cada coisa... Lembra àquele dia à beira-mar? Que lugar, hein? As ondas lambendo a areia, e nossas vozes misturadas, você dizendo que olhei demais pra Laurinha na noite anterior. Até parece... Queria, mesmo, era ter te dado meu corpo, por um minuto, pra que sentisse o que se passava em mim, ao olhar aquele vestidinho de seda que te cobria meio sem querer... Ah, só você pra achar que Laurinha me roubaria um olhar... Prefiro lembrar de quando fizemos as pazes, meia hora depois, que lugar, hein? As ondas lambendo nossos corpos... Veja que coisa essa minha gaveta de lembranças, comecei falando da valsa triste, e enveredei pelo caminho dos sussurros. É que nossos sons insistem em morar aqui, e basta abrir uma porta, uma janela, que eles gritam sua falta.
Ontem, ao fim da valsa, foi difícil conciliar o sono. Cuidei de fazer o que não devia. Revirando armários, dei com os olhos no tal cd, o mesmo onde Chopin chorava o Noturno – eis o dono da melodia – trilha de nossas brigas. Na capa, confesso, acariciei seu nome escrito como se fossem suas melenas sedosas, cujo cheiro me vem agora, e sempre que eu preciso sofrer mais. Num gesto débil, até automático, pus a tocar no mesmo quarto, fechei a porta ao sair, sentei-me ao sofá, e aguardei o último acorde, e mais algum tempo depois, no vão afã de que a mesma porta se abrisse, trazendo de volta a minha vida.
Acordei com o sol se derramando por uma janela distraída que dormiu aberta...
texto: m
Foto: Margarida Amaral
quinta-feira, 1 de maio de 2008
lume era
era um amor tão bonito,
até parecia valer a pena,
aquele amor tatuado,
suado amor, de dor amena.
aquele amor infinito,
pleno de planos,
ausente de enganos.
um verso valsificado,
que já foi Tango,
Foxtrot, e virou Fado.
nessa viagem,
aquele amor longa metragem
teve vida curta,
um mero meteoro
pela noite apressado,
e tudo dele que restou:
esse desenho desanimado.
poesia: Múcio Góes

