quinta-feira, 13 de março de 2008

canções de silêncio


cena um:


A cidade amanhece com o sol dos últimos dias de verão beijando o asfalto. Vestida de domingo, obedece quente e calma a sua rotina. Quem cruzou com o ônibus em que ele estava, fatalmente viu um rosto sonolento colado ao vidro empoeirado, e se perguntou no que ele estaria pensando àquele instante. Verdade é que o seu cérebro estava ainda no processo de assimilar as luzes daquela manhã, e nos seus tímpanos ainda retumbavam os sons das alfaias do Várzea, vestígios da noite. Na boca travada reverberava o agridoce sabor de conhaque, e o resto do corpo era só cansaço. Aqui, ali, num balançar do carro, sua cabeça se afastava do vidro e voltava com força para despertá-lo, fazendo aquele som característico. Desceu do ônibus cambaleante, passou a mão no rosto, esfregou os olhos, mas só acordou depois de tropeçar num desnível do passeio; quando descobriu que havia tomado a direção contrária ao local que estava indo.

cena dois:


O tom do despertador fica mais irritante aos domingos. Aquela voz ridícula gritando que “são nove horas, é hora de acordar!” consegue tocar o próprio íntimo dela, que salta da cama e segue até o banheiro, ou, ao espelho. Escorre os dedos no desalinho das mechas sobre a testa; abre bem os olhos. Sente a água fria tocar suas mãos, e as leva ao rosto. Lembra da noite passada. Pega o sabonete. O início da discussão. Desliza o sabonete no rosto. “Que babaquice, a dele!”. Retira dos olhos os resíduos de maquiagem. Ouve frases soltas. Molha o rosto. “Como foi pensar aquilo?...”. Mais água fria. Os gritos no carro. Prende o cabelo. Já não sabe mais o que é água no rosto molhado. Enjôo no estômago. Cozinha. De pé, encostada no balcão come algo que não lembraria o que foi ao meio-dia. Banheiro: abre o chuveiro, canta e chora.


cena três:


Os olhares se encontram ao abrir a porta do elevador. Ela descendo. Ele chegando. Sorrisos se armam, e se abraçam, trocam perguntas banais e elogios. Sorrisos vermelhos. Juntam-se ao resto do grupo, e cada um segue um rumo. Assuntos vão e vêm, a música toca sem ser ouvida, e como num carrossel, mais à frente volta a tocar para surdos. Fumaça de cigarro, cheiro de bebida, olhares furtivos, e sorrisos idem. Ela observa os gestos dele. Ele percebe os seus cabelos ondulando ao vento. Ela gosta do perfume dele. Agora já sentam lado a lado à mesa. E como o relógio não espera ninguém, já se fazia noite quando os dois dançaram uma música da qual não se lembram hoje, e lentamente tocaram-se os rostos, e a mão dela suada, fria, pareceu querer escorregar. E quando deram por si estavam abraçados, bailando sem sair do lugar ao som único do vento que balançava uma árvore.


cena quatro:


“vontade gêmea de ficar e não pensar em nada...” tocando baixinho no imaginário como trilha da cena que se vê agora. Os dois deitados no meio da noite em mudez combinada. Desejos meramente telepáticos, mas que as mãos têm liberdade de falar, como que num braile corpóreo; e assim o fazem. Um espectador atento no local diria ter visto esse balé de olhares e toques. Ele, como quem adora uma deusa, tocando mas sem tocá-la. Ela, como que diante de um templo sagrado, em seu respeito silencioso. Um toque de pés sinaliza permissão, é quando o rufar no peito acelera, e logo os olhos negam tudo. E o jogo de vontades reprimidas só aumenta, quando um olhar entende bem o que o outro diz, e o profanar mútuo chega as raias do abraço, e num extremo, tocam-se os lábios. Por fora tudo é silêncio, por dentro tambores rufando. Ela pensa na briga, no namorado. Ele pensa na língua que não se apresenta. Ela sabe que o tempo é senhor do porvir. Ele pensa que aquilo só pode ser sonho. Lábios colados. Línguas guardadas. Olhos abertos. Ele pergunta “boa noite?”, ela responde “é... boa noite...”


São 4:32h... lá fora um resquício de lua, no quarto mudez combinada, e “nada”.




baseado em fotos reais.

texto de: m
foto: Daniel Oliveira

8 comentários:

Olívia Cribari disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lica Ornelas disse...

Traduzindo em palavras momentos de uma vida real, ou parcialmente real..

curti... ;D

curti muuuuuito xD

Meagan disse...

Gostei muito! Só queria saber o nome do autor! ;-)
Bjuss pra vc meu lindo! Sucesso com seu blog!

Joaninha ... disse...

Tá poético han?
Gostei de ver.

Vc escreve muito bem.. !!!
Estarei sempre por aqui. ;)

Beijoo!

luci disse...

essa história é bem familiar..
acho q já li em algum outro lugar


:*

borboleta disse...

Suspiros ...

Ele tem o dom, perfeição em palavras ditas, contadas, compartilhadas.
sem ar, fico. intensidade que lavei-me-deus!
esse MoçoMúcio, é só encantamento.

Anônimo disse...

boa, boa... muito bom cara, otimo, vc é bom, muito bom... mas enquanto eu existir, vc estara sempre em segundo lugar...
já li isso!!! milhões de vezes, em varios blogs, em varias revistinhas de fofocas... no final da folha... porem valeu a pena, no final, cena 100!! eles ficam (separados), mas calma! não desita... tente, tente, tente denovo, sempre!!!! nunca desista!!!Pois na cena 10.00000!! eles ficam juntos!(...)
-gostei-

Rái disse...

hey...
desistir jamaaaais...
olha pra mim...
nunca desisti do amor...
hj tenhu a pessoa mais importante ao meu lado...
tenhu 1 amigo...1 noivo q posso conta a td momento...
q me ama...assim como o amo...
e a gente é super feliz...fazemos planos
keremos construir 1 futuro juntos...
lado lado...
pensamos em casamento filhos e td mais...
entao meu amigo...
desistir...jamaaaaaaaais

Thi amo mto

bju grande