sábado, 17 de outubro de 2009

Pra Que Chorar

Pra que chorar
Se o sol já vai raiar
Se o dia vai amanhecer
Pra que sofrer
Se a lua vai nascer
É só o sol se pôr
Pra que chorar
Se existe amor
A questão é só de dar
A questão é só de dor

Quem não chorou
Quem não se lastimou
Não pode nunca mais dizer
Pra que chorar
Pra que sofrer
Se há sempre um novo amor
Em cada novo amanhecer



Vinicius de Moraes
photo: Reynaldo Monteiro

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Mauricio

Maurício andava cabisbaixo, a divagar frente à televisão. Ao fim do telejornal mal sabia a previsão do tempo lá fora, e tampouco dava conta do nevoeiro interior que estava por vir; nem notava o novo cabelo da apresentadora, ou seja, estava ali o seu corpo, como numa missa de corpo presente, mas a essência vagava por mundos insólitos. Já não assistia aos seus programas preferidos, e futebol nem pensar. Maurício, de longe não era mais o mesmo. No trabalho fora chamado à sala do chefe por motivo de atraso e desatenção. Os colegas incrédulos assistiam àquilo sem compreender nada. Diziam pelos cantos que o amigo poderia estar padecendo de algum mal, mas sequer tentavam falar com ele, que fechado em copas estava desde então. Sorriso naqueles lábios era coisa rara, exceto algum esboço perdido, desses de quem lembra de algo bom no meio de um pensamento qualquer. Mas, bastava ser percebido por alguém, e ele logo fechava a cara. Semblante duro, sisudo tal qual um inglês, este era o Maurício da vez. No refeitório era um lanchinho e só; não se demorava, e no cafezinho nem mais pisava. Virara um avesso a conversas de todo tipo, e sobre trabalho apenas o essencial. À noite em casa, vinha o suplício, após “não” ver televisão ia deitar-se, leia-se literalmente. Deitava sim, mas o cérebro não mais reconhecia essas informações: noite, deitar, dormir. Rolava na cama de olhos no teto. A calma só chegava quando então ele passava a recapitular os melhores momentos vividos ao lado dela. Pois é, os colegas de trabalho mal imaginavam, mas o jovem Maurício andava a perder-se loucamente em pensamentos pela doce D... bem... o rapaz era muito discreto nesse ponto. Nesse momento o seu corpo entrava num estado de paz, e o rolar característico dos insones sumia. E lembrava de tudo, entre gestos, palavras, olhares, e até o seu cheiro; e fechava os olhos num devaneio sem fim. Criava no imaginário uma espécie de mundo perfeito onde a felicidade era a tônica principal. Ali, naquele lugar que só ele conhecia, além de sua amada, aconteciam as mais belas histórias de um amor sem par. Perdido naquele mundo o jovem esquecia do tempo e seu corpo experimentava as sensações mais puras de um grande amor vivido na plena perfeição. Mas..., a vida insiste em seguir seu curso, e sóbria, e logo ele via que tudo aquilo era sonho, e ao despertar, ao dar de frente com a realidade no escuro do quarto, vinha a lança afiada da verdade e ele sentia assim a mais cruel fisgada no peito, a dor lancinante do amor a sós, amor unilateral, do amor impossível. A lágrima era a véspera do choro compulsivo e silencioso; abafado entre mãos, como a se esconder de si mesmo. Maurício seguia assim até ser vencido pelo sono, e na mais infame das ironias, ao dormir sequer conseguia sonhar com ela...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

O Mundo é Um Moinho

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que iras tomar

Preste atenção querida
Embora eu saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco tua vida
Em pouco tempo não serás mais o que és

Ouça-me bem amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos, tão mesquinho.
Vai reduzir as ilusões à pó

Preste atenção querida
Em cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés

Composição: Cartola
Photo: Isis

sábado, 8 de agosto de 2009

quem viver, verão...

é, amor,
vai que seja de repente,
um hoje
assim como hoje,
eternamente,
nós dois frente a frente,
bem rente,
mais do que normalmente.
então, amor,
tente,
traga os cabelos
que eu tenho o pente;
pra distrair
o seu olhar,
uma lua cheia
e um sol poente.
venha, amor,
como se entra no mar,
entre;
de olho no olho,
dente no dente,
e as noites frias
se farão mais quentes,
enquanto inverna lá fora,
outros verão
dentro da gente.


m
photo: Gisleine Martin

domingo, 24 de maio de 2009

876

não há milagre
que eu faça
com mais carinho,

que esse
de transformar
mágoa em vinho.


Múcio Góes
photo by samuel alves.

876 é um vinho argentino, e muy bueno

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Inutilidades

Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém a xícara não voa.

De que serve o pé da mesa se não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.


José Paulo Paes
foto: Paulo Cardoso

domingo, 19 de abril de 2009

peace to face

é como
se ali
tudo se alasse
e o silêncio
tudo gritasse
e tudo
que é flor
se beijasse
e tudo
que é dor
se passasse
ao
toque
da minha
na tua

face


é assim Nati.. quando toco tua face!
beijo, princesa. Amo você!

foto: Mark Freedom
m.